Terei de lidar com isso

Cerca de 10 anos separam as duas fotos, alguns meses a mais, alguns meses a menos… A lacuna de uma década entre elas aponta para algo muito intenso: mudanças.

Sim, há a mudança física clara, mas essa é pueril perto de outras, ela é impactante e se sobressai logo de cara e, na sequência, perde força. As outras, contudo, não se vê, mas são as mais profundas e importantes.

Muita coisa mudou desde então. Não sou ingênuo nem falso para dizer que todas as transformações foram positivas ou boas. Perdi pessoas, vivi momentos que não gostaria de ter vivido, chorei por situações que nem imaginaria e ri dos outros e de mim mesmo quando o desespero parecia ser a única resposta.

Às vezes, em meio ao caos, encontro alegria; em outras, em meio à paz, sobrevém a angústia, delicada e suave como uma tarde de domingo ou intensa como um vácuo no peito.

Nessa década, fui capaz de fazer coisas que nunca acreditei que pudesse, para o bem e para o mal. Quebrei algumas de minhas regras, estabeleci outras, ultrapassei limites que me surpreenderam e que também me decepcionaram. Como disse, não sou ingênuo de acreditar que tudo foi positivo, mas também não sou pessimista para acreditar que tudo piorou ou que apenas o passado era bom.

Sim, o passado era bom, mas também teve coisas ruins. Sim, o presente é bom, e continua com seus entraves, tristezas, desafios, angústias, mas também vitórias, conquistas, sorrisos e lágrimas que também são de gargalhadas.

É difícil dizer exatamente o que aprendi sobre mim mesmo, nosso autoconhecimento é um pouco difuso quando tentamos colocar em palavras exatas, talvez por sermos um universo tão complexo que não seja possível resumir em apenas algumas frases.

Vi que gosto de algumas coisas que permanecem de minha personalidade. Ainda sou a pessoa que amigos e familiares procuram para conversar, desabafar, contar segredos, pedir apoio. Isso me faz bem, se posso fazer algo por alguém que amo, então meu coração sorri.

Percebi também que comemorei com cada vitória e conquista das pessoas ao meu redor. Um diploma, uma casa, uma moto, mudança de emprego, mudar o cabelo, realizar uma cirurgia, ter um filho, escrever um livro, aprender a fazer um novo prato, começar o seu próprio negócio, iniciar um relacionamento, terminar um relacionamento. Não importa quão grande ou pequeno o fato pareça, empolguei-me com aqueles que amo, e dei aquele olhar orgulhoso com um brilho diferenciado.

Sei também que recebi belos olhares, abraços, beijos, palavras (ah, e que poder têm essas danadas), em cada passo, em cada etapa. Diplomas, mudanças de emprego, casamento, amadurecimento, conseguir patinar no gelo (mesmo caindo muito), conseguir minha casa, escrever mais um livro ou dois.

Foram 10 anos nos quais tive tempo com as pessoas que amo, e teve dias em que não tive tempo algum. Fui presente e ausente. Quis fugir de situações sociais e ficar na minha cama o dia todo, mesmo sem poder. Em outras vezes, quis mais tempo com as pessoas e não tive, fosse porque eu precisava ir embora ou porque elas partiram, algumas para sempre, como meu pai, que bem no meio dessa minha década morreu. Sim, “morreu”, não gosto de dizer que “perdi” meu pai, essa expressão me faz parecer só um filho desatento que esqueceu o velhinho no supermercado.

Agradeço a Deus por ter tido meu pai até praticamente meus 30 anos comigo. Sigo agradecendo diariamente por ter minha mãe comigo, e que ela viva muito ainda.

Sou grato por cada minuto em que posso estar, falar ou me fazer presente de alguma forma às pessoas que amo, que me amam. Sinto-me, naturalmente, culpado quando não posso estar com elas, isso dificulta muito minha dedicação a projetos puramente meus, mas foi a forma que meu coração se moldou conforme cresci.

Sou cheio de neuras e tão leve como uma pena.

É fácil de conviver comigo, mas tão difícil às vezes que penso como ainda existem pessoas ao meu redor. Por que elas não foram embora, afinal? Eu mesmo acordo sem querer estar comigo, sem querer existir. E fico imaginando que, se Deus já sabia de tudo e tem um propósito para cada coisa e pessoa, o que Ele queria quando me fez nascer?

Eu não entendo e odeio isso. Não sei para que sirvo, não sei o que deveria estar fazendo, sofro por não conseguir realizar todos os desejos do meu coração e não sei por que eles estão ali, mas os sofrimentos são secundários, todos derivados da pergunta: por que eu estou vivo?

Já pensei que vi coisas demais para permanecer por aqui. E depois percebo o quanto ainda quero ver, fazer, escrever e viver!

Aos 25 anos escrevi que só queria viver tempo suficiente para ser feliz. Aos 35, vejo que fui feliz, fui triste, empolgado, decepcionado, machucado e fui feliz de novo. Ou seja, a gente não chega a um lugar, a gente trafega por vários e vai vendo o que dá para carregar e o que dá para largar pelo caminho. E nem sempre é uma escolha consciente do que fica e do que vai.

Sou estranho e sei disso. Não gosto de passar entre mesas cheias de uma praça de alimentação porque acho que estou atrapalhando outras pessoas, tenho dificuldade de cobrar dívidas ou ligar na NET para fazer uma reclamação. No entanto, adoro roubar a cena e começar a falar no meio de uma grande plateia, discurso sobre barbaridades e não tenho vaidade ou orgulho algum em assumir meus erros e fragilidades.

E quando alguém me machuca, nem sempre fico com raiva da pessoa, às vezes volto essa indignação contra mim mesmo e desejo não existir, não estar aqui. Como diz a canção, algumas pessoas confundem minha bondade e gentileza com fraqueza… talvez elas estejam certas, mas talvez eu só não queira conviver comigo mesmo com o peso de ter sido intencionalmente agressivo.

Sei que não sou bom, ninguém é o tempo todo. Mas sei que tenho potencial para ser muito pior do que sou, de fazer coisas malignas que tirariam o sono das pessoas mais seguras de si. Escolho me diminuir para tentar machucar o menos possível os outros, mesmo que o ônus fique comigo.

Cheguei até aqui e, mesmo achando que já tinha visto de tudo, vi um pouco mais nesses 10 anos. E pretendo ver mais além. Sei que vou chorar perdas, vou comemorar vitórias, vou rir como um idiota de coisas que nem deveria, irei me emocionar com canções e ter ideias criativas das simplicidades da vida. Não será fácil, mas não será impossível. Aos amigos, familiares, colegas: estou por aqui.

Não sei o que vou realizar, nunca planejo a vida, os passos, os sorrisos, os olhares… Mas sei que ainda vou fazer muito, você que aguarde. Enquanto o peito pulsar, com meus erros e acertos, vou marcar meus passos no mundo. E se ninguém tiver interesse em contar minha história um dia, eu mesmo já fui contando um pouquinho.

Sei que vou manter minha ingenuidade em vários aspectos, ao mesmo tempo em que continuarei com esse olhar sagaz e um fogo intenso que só eu tenho no peito pra viver, rir e me jogar nas coisas. Se cada um é único, assumo minha exclusividade com tudo que ela traz, seja lá aonde isso vai me levar.

Se não sei o motivo de eu estar nesse mundo, sei do fato incontestável de que aqui estou, e terei de lidar com isso, assim como vocês! Feliz aniversário de 35 anos!

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Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

Um comentário em “Terei de lidar com isso

  1. Parabéns pelo seu aniversário, eu respondo porque você deve estar aqui, porque foi um sonho realizado que Deus me deu ,o segundo sonho mais um príncipe a meu lado, inteligente e muito amado, que continue sendo esse menino alegre e carinhoso te amo muito

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