O piquenique – os sinais

– Um… piquenique?

– Sim, cara, um piquenique. Acha que fui abusado demais?

– Abusado? Você tá maluco? Você quer sair com essa garota há pelo menos uns seis meses e a primeira oportunidade que tem de chamá-la para ir a qualquer lugar, repito, qualquer lugar, você fala que quer fazer um piquenique?

– Me pareceu ousado, romântico, um momento só nosso.

– Sim, se estivéssemos no século XVIII, uma pena que mais de 200 anos separam sua ideia maravilhosa de um momento romântico, ela deve ter achado que você é um idoso. Por que você não foi direto ao ponto? Poderia ter chamado para um lugar mais tranquilo, só vocês dois… um motel, quem sabe?

– Um motel, Anderson? Agora o maluco é você. Cara, a gente só tem 17 anos, é ilegal entrar num lugar desses com nossa idade. Fora que chamar uma garota para o motel no primeiro encontro já define bastante suas intenções e você não tem mais volta disso. Não tem como falar que foi uma sugestão ruim apenas, como um filme no cinema.

– Isso, Rafael, um cinema! Seria tão difícil tê-la chamado pra isso?

– Mas nós já vimos a maioria dos filmes que estão em cartaz, inclusive a culpa é sua, Anderson, a gente sempre vai ao shopping, dá a mesma volta, para na livraria e assiste um filme.

– E deveria ter feito mais, aparentemente, pois você não aprendeu nada, Rafa. Primeiro que isso seria ótimo! Entrar num filme repetido te dá a oportunidade de focar apenas nos seus movimentos com ela e ainda poder comentar do filme depois, caso necessário, o que te eleva ao cargo de amante, atencioso e inteligente. Mas, porra, piquenique… e ela aceitou?

– Sim, aceitou, mas agora você está me deixando inseguro. Acha que devo mudar, cancelar, falar que estou doente, Andy?

– De jeito nenhum, cara! Pior do que uma ideia merda – e devo dizer que a sua foi bem bosta – é ser covarde e voltar atrás. Vamos até o fim, talvez tenha algo bom nisso aí. Como planejou esse tal piquenique?

– Ah, não planejei grande coisa. Íamos nos encontrar no parque e decidir o que fazer ali. Pensei em comprarmos uns lanches, refri e sentar na grama pra comer. Já pensou, uma tarde de céu azul, uma brisa boa? Ia ser demais.

– Só isso? Não pensou em nada para deixar o clima melhor, mais fácil? Vai deixar tudo na mão do acaso?

– Ah, nosso papo é tão bom e flui tão gostoso que não precisa de muita coisa. Eu estava tranquilo com isso…

– Rafa, meu amigo, você tem de levar uma cerveja, algo alcoólico para vocês relaxarem, diminuir a pressão. E se ela não gostar de lanche, ou se não tiver algo bom aberto ali perto? Há muitas variáveis para dar errado. Se a lanchonete do parque estiver fechada, vocês vão ficar um tempo olhando um para o outro com fome, sede e ela te achando um merda que chama para um piquenique que nem piquenique é. Você tem de fazer tudo completo!

– Então preciso duma daquelas cestas, uma toalha quadriculada, tudo isso? Estou ficando ansioso, achei que seria mais fácil.

– Toalha quadriculada e cesta? Porra, Rafael! Você é a garota, é isso?

– Ela vai levar, então?

– Não, pelo amor de Deus! Você tem de levar as coisas, mas não precisa ser tão imbecil. Bota tudo numa mochila, senão vai parecer a pastora do campo com uma cestinha de vime com duas aberturas, ninguém usa isso hoje em dia, acho que nem existe mais isso… talvez num museu! Leva umas comidas, uma fruta, bebida.

– Acho que tenho umas laranjas aqui em casa, e manga. Serve, né? E posso levar uma toalha de mesa mesmo.

– A toalha pode ser qualquer coisa, até de banho, menos a quadriculada! Agora fruta é o sinal mais importante, não pode ser laranja. Laranja é muito indiferente, cítrica. Você não quer que ela te ache indiferente a ela, não é? E a manga não vai funcionar. Se levar inteira, vão se lambuzar para comer e será uma nojeira. Minha mãe costumava me dar banho depois de comer manga de tão terrível que você fica depois. Manga você só pode comer sozinho, em casa e, de preferência, na pia, para se lavar na sequência.

– Posso levar a manga já cortada, num potinho, Andy, o que acha?

– Acho que você pode ficar com o irmão dela se fizer isso! Ninguém leva fruta cortada, a menos que for Natal e você tenha ficado encarregado da salada de frutas para ajudar sua avó!

– Ela nem tem irmão!

– Não é esse o ponto, Rafael! Tem de ser uma fruta atraente, que dê sinais. Uma maçã!

– Maçã? Mas eu nem gosto muito de maçã. A maçã é uma fruta idiota, ela só perde para uma pêra de tão imbecil que é!

– Como assim, Rafa?

– A maçã finge ser algo maravilhoso, com aquela casca vermelha, mas você abre e não tem nada de bom, só uma areia doce. A banana é prática, tem uma casca que sai fácil, alimenta bem, é amarela, neutra, não finge ser o que não é, mas a maçã é uma falsa!

– A maçã é a fruta do pecado, toda boa história tem uma maçã representando sexo.

– Não tem não, Anderson, de onde tirou isso?

– Tem sim, Adão e Eva, Branca de Neve, Guilherme Tell…

– Em nenhuma dessas histórias a maçã significa sexo!

– Cale a boca, tem sim. Se não tem, então por que existe a “maçã do amor”, hein? Leve algumas maçãs.

– Tá bom, tá bom, maçãs. O que mais, porque não posso levar cerveja e maçã apenas, né?

– Não… morangos. Leve morangos.

– Mas as sementes entram nos dentes, tem alguns azedos, nem sempre é fácil de achar uns bons.

– Cara, você quer ficar com essa menina ou não, Rafael?

– Quero!

– Então leve maçãs e morangos e compre uns dois tipos de bebida, cerveja não é a melhor mesmo.

– Eu não tenho 18 anos ainda, não dá pra comprar bebida.

– Faz uma cata do que tem aqui na sua casa!

– Então beleza, Andy. Vamos recapitular. Uma mochila com maçãs, morangos, vou levar banana também, pra matar a fome…

– Tá bom, pode levar a banana. Isso pode dar até uma boa ideia!

– Deixa de ser escroto!

– Só estou dizendo que pode ser um bom sinal também.

– Continuando. Vou levar uma toalha vermelha, simples, que tem aqui pra gente sentar em cima. E deixe-me ver essa geladeira… Tem esse champanhe que tá fechado desde o ano novo.

– Parece meio vagabundo, aquelas bebidas de macumba, sabe?

– Mano, é o que tem! Fora que, se é pra lembrar de filmes, como você disse, sempre tomam morangos com champanhe nos hotéis chiques, não sei o porquê!

– Acho que é porque as duas coisas combinam.

– Champanhe e morangos?

– Não! Champanhe e hotéis chiques. Os morangos o pessoal só gosta mesmo, o vermelho fica bonito na filmagem.

– Fica quieto, sua anta! Acho que vou levar essas duas brejas também, então, vai que ela gosta.

– Cara, cerveja não combina. Leva vodca.

– Você ta louco? Vou levar vodca com o quê? Vou parecer um alcoólatra ou um sequestrador tirando uma garrafa de bebida forte sem contexto.

– Tem razão, Rafa! Vamos de champanhe e frutas, então… quem sabe um chocolate.

– Agora você foi sensato. Todo mundo gosta de chocolate.

– Sim, e se ela estiver na TPM, pelo menos ela vai te odiar menos amanhã!

– Cara, Anderson! Quanta coisa a gente tem de pensar pra um passeio tranquilo no parque. Será que as garotas ficam ansiosas e pensam nisso tudo também?

– Não, cara, ela não pensa em nada disso, ela sabe que a responsabilidade é sua, uma vez que você convidou. Elas não ficam ansiosas, elas só querem ver a gente sofrer e se desesperar, é isso que dá prazer a elas de verdade. Por isso que estou aqui, pra te encorajar e te ajudar.

– Você sabe que você fez um péssimo trabalho, né? Eu estava tranquilo e você veio cheio de coisas pra fazer e pensar.

– Mas agora está preparado. Se ela achou que ia ficar olhando pra sua cara e zombar da sua ideia inútil de um piquenique, agora ela vai ter todos esses sinais que colocamos pra se ocupar.

– E como vou saber se ela gostou, se vai querer me beijar e etc.? Nunca fica claro pra mim quando uma mulher me quer.

– Cara, infelizmente elas nunca demonstram, é um jogo de sombras, mas você pode reparar em outras coisas que podem dar uma dica: o cabelo dela, talvez a maquiagem… Ah, se você notar que ela está de lingerie de renda preta ou vermelha, ela quer transar.

– Que ideia é essa?

– É assim que funciona. Lingerie combinando é sexo, bojo no sutiã significa que ela quer te impressionar. Se ela jogar o cabelo todo para um lado, ela quer fazer charme e ser sensual; se ela o alisar várias vezes para baixo, então está insegura ou nervosa e isso é um pouco bom, mas não por muito tempo; se coçar a cabeça, está confusa; agora se começar a olhar as pontas do próprio cabelo, mude de assunto ou saia correndo.

– Por quê?

– Porque aí você está sendo um babaca e ela está entediada.

– Certo, nossa! Muita coisa. Espero que dê tudo certo…

– Preste atenção a tudo, e não esqueça a lingerie.

– Cara, não temos nem lugar pra fazer isso, é só um papo e um passeio.

– Nunca é só um papo, Rafael.

 E Rafael foi ao parque com a mochila pesada, carregando frutas, bebidas, toalha e uma ansiedade no peito que não cabia em si. Encontraram-se perto da pista de corrida, ao lado do lago, onde havia um gramado bonito no qual o sol se deitava calmamente aquecendo aquela tarde de fim de verão.

Ele ficou tão impressionado com o jeito descontraído e sorridente dela que tudo parecia um pouco etéreo, como um sonho. Mas seu coração palpitava forte, sem saber se era o nervoso ou porque ela pegou em sua mão enquanto caminhavam em direção à beira do lago, onde foram se instalar.

Ele esticou a toalha, e foi no momento que ia tirar as outras coisas da mochila que teve um sobressalto. Na outra mão a garota estava carregando uma cesta de piquenique, com duas aberturas. Pousou a cesta calmamente sobre a toalha e, sorrindo, tirou duas maçãs super vermelhas e brilhantes dali de dentro.

Rafael sorriu e pegou o champanhe com um olhar de proposta. Ela tirou duas cervejas da cesta. Ele sorriu e mordeu uma maçã, quase engasgando quando ela sentou e ele pôde ver, de relance, um pedaço da renda da calcinha dela. Era preta!

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

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