As manchas de cores


Dizem que falo bastante
Que demoro para chegar ao ponto
Sou um livro da tua estante
Desfecho de um longo conto

Esse mundo não sabe mais aproveitar
As pequenas coisas de uma narrativa
Não diferenciam detalhes que embelezam o ar
Nem a coisa apressada daquela que é ativa

Deus fez tanta coisa bela
Tanto para contar e viver
Natureza simples, complexa e até ela
Menina singela que desperta meu bem-querer.

E como falar de tudo isso
De forma rápida e jogada?
Onde eu deixaria meu compromisso
Com a palavra escrita e falada?

Portanto, é fácil me perder
Nos deliciosos caminhos da existência
Citando relance de tudo que se faz ser
E pedindo a ti um pouco de paciência

Pois é preciso que se fale das cores e flores
De cada mancha alegre que Deus escondeu
Daquelas pelas quais morro de amores
E mesmo daquelas que nos revelou e nos deu

O encanto está no detalhe
Como na tua boca rosa
Obra do artesão, seu entalhe
Árduo de explicar em verso ou prosa

Ainda tua pele é mistério puro
Toque suave, calor exaltado
Império daquilo que procuro
Portas que se abrem em um peito apaixonado

O que dizer, então, do teu leve sorriso?
No meu céu noturno, é quasar de brilho intenso
É uma doce canção que serve de aviso
Que a sereia me encantou e perderei o bom-senso

“E para que tanto falar, homem de Deus?
Resuma o que quer de uma vez.
Diga o que veio dizer os lábios teus
Com muito sentido e pouca escassez!”

Ora, meu senhor, o que mais seria
Senão um apelo á bela dama?
Vim demonstrar que a queria
E dizer que meu coração por ela clama

Vim avisar que meus olhos se molham
Num relance que dela tenho
Não seja porque choram
E sim pelo brilho que me ganha o cenho

Digo que o coração bate
E um pouco apanha quando a vejo
Pois não sei bem que palavra dar-te
Nem que forma seria o melhor cortejo

Resta então o impulso primevo
De paralisar quando se admira
Como mortal a ver o que não devo
Como que encantado pelo som da lira

E de tudo que Deus fez e criou
Resta um algo especial a destacar
Foi o que, afinal, me apunhalou
Aquilo do qual não pude escapar

É o relance de cor que ao ver
Minha alma não soube abandonar
Esse pouco de verde dos teus olhos me faz viver
Sonhar, amar e contemplar

E tanto verso se fez presente
Por um pouco de verde misturado ao mel
Mas me perco nas órbitas incandescentes
Dela que tira o véu do mundo e me revela o pedaço de céu

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.